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Conservação
Factores de ameaça
A Águia de Bonelli está sujeita a um conjunto diversificado de factores que põem em risco a estabilidade das suas populações, sendo de salientar as que se enumeram em seguida.
Abate de indivíduos
A perseguição directa tem diversas causas e naturalmente afecta sobretudo aves jovens e imaturas. Um dos conflitos potenciais relaciona-se com as actividades cinegéticas, uma vez que a Águia de Bonelli se alimenta frequentemente de espécies de caça menor. Outra fonte potencial de conflito é o consumo de presas domésticas (sobretudo pombos e galinhas). Entre 1990 e 1999, nos 16 casos conhecidos de indivíduos adultos mortos em Portugal, cerca de 70% foram devidos a abate a tiro.
No entanto, pelo menos no sudoeste serrano, o facto da mortalidade adulta ocorrer quase exclusivamente fora da época de nidificação e a mortalidade nos machos ser bastante superior à das fêmeas indica que a mortalidade adulta se deverá maioritariamente a tiro fortuito no decorrer da caça e não a perseguição intencional. No caso contrário seriam as fêmeas, mais facilmente localizáveis e vulneráveis durante a reprodução, que seriam abatidas com mais frequência e durante a época reprodutora.
Perturbação por actividades humanas
A perturbação provocada por actividades florestais é a principal causa de abandono de ninhos durante os períodos críticos da sua ocupação e da incubação. Entre estas actividades contam-se as desmatações, a extracção de madeiras, as plantações florestais e a abertura de aceiros ou caminhos.
A perturbação humana derivada de actividades cinegéticas é outra causa potencial de abandono de ninhos ou posturas. Os impactos negativos mais significativos resultam de montarias a caça maior (sobretudo a javalis) que geralmente ocorrem no período da incubação, podendo originar o abandono das posturas.
Degradação do habitat
São causas de degradação de habitats importantes para a espécie no Sul do pais: o declínio generalizado do arvoredo (sobreiros, pinheiros e eucaliptos) devido às alterações climáticas e pragas, os incêndios florestais, as actividades florestais intensivas ou mal conduzidas e risco de corte das árvores que sustentam os ninhos, e a construção de infra-estruturas como barragens e rodovias, e ainda obstáculos diversos na paisagem como linhas eléctricas e parques eólicos. A não intervenção no conjunto destes factores de ameaça, muitos deles controláveis local ou regionalmente, conduzirá previsivelmente, num futuro a médio-longo prazo, à redução do potencial reprodutor desta população. A degradação do arvoredo, os cortes de árvores dos ninhos e os incêndios, junto com a perturbação dos locais de nidificação, induz secundariamente um aumento da frequência na rotação entre ninhos alternativos, de menores dimensões, menos estáveis e em árvores de pior qualidade, acarretando um aumento das perdas de ovos e crias associada ao desabamento parcial de estruturas pouco consolidadas. Esta mortalidade pode atingir 20 e 13% respectivamente da perda total de ovos e crias nos ninhos.
Escassez de alimento
A Águia de Bonelli baseia a sua dieta em aves e mamíferos selvagens ou domésticos de médio porte. Onde nenhuma das presas preferenciais - espécies de caça menor ou pombos domésticos - abunda, a espécie diversifica a sua alimentação mas regista-se a diminuição da produtividade dos casais. A escassez de alimento está associada à degradação dos habitats, por exemplo por extensas plantações de eucalipto, à sobrecaça, às epizootias, e à perda de diversidade do habitat e de recursos alimentares associada ao despovoamento humano.
Mortalidade juvenil por doença
Diversas patologias podem estar na causa da mortalidade juvenil. No entanto, é a tricomoníase, provocada pelo protozoário flagelado Trichomonas gallinae, que mais afecta as crias pois as lesões que provoca na orofaringe podem bloquear a ingestão de alimentos. O meio de transmissão deste agente infeccioso é o consumo de pombos domésticos, que são o seu principal reservatório e representam uma parte muito importante da dieta da maioria dos casais. A mortalidade provocada pela tricomoníase atinge 38% em média da mortalidade nidícola anual, constituindo a principal causa de perda de crias nos ninhos do sudoeste serrano.
Mortalidade em linhas eléctricas e parques eólicos
A grande extensão das redes eléctricas de média e alta tensão existentes resulta num risco de colisão ou electrocussão bastante elevado para uma espécie de grande envergadura, sobretudo nas áreas de assentamento pré-adulto.
Os parques eólicos representam uma ameaça actualmente em grande expansão, existindo diversos projectos planeados para áreas de reprodução da espécie.
Faltas de conhecimento
Existem várias lacunas no conhecimento da biologia da Águia de Bonelli que têm implicações directas na conservação, nomeadamente no que diz respeito às causas de mortalidade dos adultos, à dinâmica da população e à epidemiologia da tricomoníase.
Falta de sensibilização das populações
Esta espécie é escassamente conhecida da população em geral devido à sua habitual discrição. No entanto, a sua conservação bem como a de outras espéciesde rapinas passa pela sensibilização da sociedade civil.
As populações que vivem na proximidade dos seus territórios, promotores de empreendimentos, decisores políticos, gestores florestais, gestores de caça, proprietários e caçadores, deverão conhecer a espécie, a sua importância ecológica e as ameaças a que está sujeita, e participar activamente na sua conservação, se queremos que qualquer projecto de conservação, como este, seja efectivamente eficaz.
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