|
Biologia e Genética
Morfologia
A águia de Bonelli é uma ave de rapina de médio porte com típica coloração branca no peito e face interior das asas (coberturas alares), sendo escuras no dorso e face superior das asas. Na extremidade da cauda tem uma barra subterminal negra. Possui uma envergadura que varia entre 1,5 e 1,8 m, comprimento de 65 a 72 cm e peso de 1500 a 2400 gr. No entanto, no Sul de Portugal parece atingir dimensões e peso ligeiramente superiores.
Os jovens possuem uma plumagem muito distinta, sendo as asas castanhas escuras e o resto do corpo castanho amarelado. A partir de um ano de vida esta plumagem começa a transitar para os padrões da plumagem adulta que são atingidos plenamente no 4º ou 5º ano de idade. As fêmeas distinguem-se dos machos sobretudo pelo tamanho, tendo normalmente cerca de 20 cm a mais de envergadura.
Esta espécie de águia pode confundir-se com outras aves com plumagem branca no ventre como a Águia-calçada ou a Águia-cobreira, sendo porém o contraste do corpo branco com as asas escuras característico da Águia de Bonelli. O seu voo rápido e ágil também as distingue das espécies anteriores.
Reprodução
A Águia de Bonelli é a ave de rapina que se reproduz mais cedo na região mediterrânica. No sul de Portugal as primeiras posturas ocorrem no início de Janeiro. Esta fenologia precoce permite que os jovens saiam dos ninhos durante o pico da disponibilidade alimentar de Abril - Maio, no auge da reprodução de grande parte das suas presas potenciais. Por outro lado permite com alguma frequência a existência de segundas posturas bem sucedidas, em substituição de incubações falhadas.
O número de ovos é com frequência 2, menos frequentemente 1 e raramente 3. O número de ovos depende da qualidade alimentar do território, da fertilidade individual e das condições metereorológicas do período pré-reprodutor, que condiciona a facilidade de captura de presas e em consequência, o estado fisiológico das fêmeas. Períodos prolongados de precipitação no período pré-reprodutor reduzem a fertilidade, tal como precipitação persistente durante a incubação obriga a interrupções prolongadas e pode provocar a morte dos embriões. A incubação dura 39 dias em média, e aproximadamente 65 dias o desenvolvimento nidícola das crias, após o qual os juvenis abandonam os ninhos e se inicia a emancipação. Durante este período os juvenis voadores mantêm-se mais ou menos associados à área natal até à dispersão definitiva ao fim de cerca de 5 meses (em Setembro-Outubro).
Territorialidade
As populações reprodutoras de Águia de Bonelli estão estruturadas em casais monógamos e relativamente estáveis, com territórios exclusivos de grandes dimensões (10 000 e 20 000 ha no sudoeste serrano, em média ca. 14 000 ha) em que não é permitida a permanência de outros indivíduos da mesma espécie. Graças a uma territorialidade muito activa, também são expulsas ou eliminadas a maioria das outras espécies de aves de rapina, pelo que tanto o número de espécies presentes como a sua abundância é muito reduzida no seio das populações densas de Águia de Bonelli.
Demografia e Genética
A população de Águia de Bonelli do Sul de Portugal tem vindo a crescer e expandir-se continuamente durante as três a quatro últimas décadas a partir de um pequeno núcleo de casais do sudoeste serrano e sudeste estepário. Esse crescimento foi possível devido ao espaço disponível deixado pelo despovoamento humano a partir da década de 1960. As características genéticas desta população, estabelecidas com base na análise de microssatélites polimórficos confirmam o anterior cenário, pois a reduzida variabilidade genética detectada acusa um "efeito fundador" de um pequeno número de efectivos. A expansão subsequente veio preencher lacunas e ocupar as periferias da distribuição e, após atingida a saturação, iniciou a exportação de novos reprodutores para o exterior, que vieram a ser recrutados em territórios situados a distâncias consideráveis de até 150 km dos núcleos de origem.
Outra característica desta população é o seu marcado distanciamento genético em relação a todas as outras populações vizinhas, reflectindo a raridade do intercâmbio de genes com o exterior e um significativo isolamento reprodutor. A razão deste facto poderá residir na impregnação do comportamento de nidificação arborícola que origina uma preferência acentuada por essas tipologias de habitat em detrimento de habitats rupícolas, enquanto que o inverso se passará com as populações vizinhas.
Devido às sua diferenciação ecológica, comportamental e genética, a população de Águia de Bonelli do Sul de Portugal constitui uma unidade de gestão particular em termos de conservação.
|